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Um Homem
Clebre
Machado
de Assis
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Um Homem Clebre
 AH! o SENHOR  que  o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um
largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade:  Desculpe meu
modo, mas. ..  mesmo o senhor?
Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano,
enxugando a testa com o leno, e ia a chegar  janela, quando a moa o fez
parar. No era baile; apenas um sarau ntimo, pouca gente, vinte pessoas ao
todo, que tinham ido jantar com a viva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos
anos dela, cinco de novembro de 1875... Boa e patusca viva! Amava o riso e a
folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a ltima vez que folgou e
riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viva! Com que alma
e diligncia arranjou ali umas danas, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana
que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se
gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez
minutos, a viva correu novamente ao Pestana para um obsquio mui particular.
 Diga, minha senhora.
  que nos toque agora aquela sua polca No Bula Comigo, Nhonh.
Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem
gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos,
derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram s damas, e os
pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda, tinha sido publicada
vinte dias antes, e j no havia recanto da cidade em que no fosse conhecida. Ia
chegando  consagrao do assobio e da cantarola noturna.
Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira  mesa
de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rap, cabelo negro,
longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana
compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a
polca. Da a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado.
Nem assim as duas moas lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais
modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as cada vez mais
enfadado, at que, alegando dor de cabea, pediu licena para sair. Nem elas,
nem a dona da casa, ningum logrou ret-lo. Ofereceram-lhe remdios caseiros,
algum repouso, no aceitou nada, teimou em sair e saiu.
Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; s
afrouxou, depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas a mesmo
esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta,  direita, a poucos
metros de distncia, saam as notas da composio do dia, sopradas em
clarineta. Danava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar
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caminho, mas disps-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu
pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o
nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. J perto de casa, viu vir
dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana, comeou a assobiar
a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na msica, e a
foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da pea, desesperado,
corria a meter-se em casa.
Em casa, respirou. Casa velha. escada velha. um preto velho que o servia, e que
veio saber se ele queria cear.
 No quero nada, bradou o Pestana: faa-me caf e v dormir.
Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto
acendeu o gs da sala, Pestana sorriu e, dentro d'alma, cumprimentou uns dez
retratos que pendiam da parede. Um s era a leo, o de um padre, que o educara,
que lhe ensinara latim e msica, e que, segundo os ociosos, era o prprio pai do
Pestana. Certo  que lhe deixou em herana aquela casa velha, e os velhos
trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns motetes o padre, era doido
por msica, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no moo, ou tambm lhe
transmitiu no sangue, se  que tinham razo as bocas vadias, cousa de que se
no ocupa a minha histria, como ides ver.
Os demais retratos eram de compositores clssicos, Cimarosa, Mozart,
Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns trs, alguns, gravados, outros
litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como
santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite l estava aberto:
era uma sonata de Beethoven.
Veio o caf; Pestana engoliu a primeira xcara, e sentou-se ao piano. Olhou para
o retrato de Beethoven, e comeou a executar a sonata, sem saber de si,
desvairado ou absorto, mas com grande perfeio. Repetiu a pea, depois parou
alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez
de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma
alhures. Haydn levou-o  meia-noite e  segunda xcara de caf.
Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar  janela e olhar
para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao
piano, e, de p, dava uns golpes soltos no teclado, como se procurasse algum
pensamento mas o pensamento no aparecia e ele voltava a encostar-se  janela.
As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no cu  espera de
algum que as fosse descolar; tempo viria em que o cu tinha de ficar vazio, mas
ento a terra seria uma constelao de partituras. Nenhuma imagem, desvario ou
reflexo trazia uma lembrana qualquer de Sinhazinha Mota, que entretanto, a
essa mesma hora, adormecia, pensando nele, famoso autor de tantas polcas
amadas. Talvez a idia conjugal tirou  moa alguns momentos de sono. Que
tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moa dormia ao som da
polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta no cuidava nem da polca nem da
moa, mas das velhas obras clssicas, interrogando o cu e a noite, rogando aos
anjos, em ltimo caso ao diabo. Por que no faria ele uma s que fosse daquelas
pginas imortais?
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s vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de
idia: ele corria ao piano para avent-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em
vo: a idia esvaa-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos
correrem,  ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart:
mas nada, nada, a inspirao no vinha, a imaginao deixava-se estar dormindo.
Se acaso uma idia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma pea
alheia, que a memria repetia, e que ele supunha inventar. Ento, irritado, erguiase,
jurava abandonar a arte, ir plantar caf ou puxar carroa: mas da a dez
minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imit-lo ao piano.
Duas, trs, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado,
desanimado, morto; tinha que dar lies no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou
s sete horas. Vestiu-se e almoou.
 Meu senhor quer a bengala ou o chapu-de-sol? perguntou o preto, segundo
as ordens que tinha. porque as distraes do senhor eram freqentes.
 A bengala.
 Mas parece que hoje chove.
 Chove, repetiu Pestana maquinalmente.
 Parece que sim, senhor, o cu est meio escuro.
Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:
 Espera a.
Correu  sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mos no
teclado. Comeou a tocar alguma cousa prpria, uma inspirao real e pronta,
uma polca, uma polca buliosa, como dizem os anncios. Nenhuma repulsa da
parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneandoas;
dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as
discpulas, esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva,
esquecera at os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha s,
teclando ou escrevendo, sem os vos esforos da vspera, sem exasperao,
sem nada pedir ao cu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tdio. Vida,
graa, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.
Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou
para jantar: mas j a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composio
recente e indita circulava o sangue da paternidade e da vocao. Dois dias
depois, foi lev-la ao editor das outras polcas suas, que andariam j por umas
trinta. O editor achou-a linda.
 Vai fazer grande efeito.
Veio a questo do ttulo. Pestana, quando comps a primeira polca, em 1871, quis
dar-lhe um ttulo potico, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabea,
e disse-lhe que os ttulos deviam ser, j de si, destinados  popularidade, ou por
aluso a algum sucesso do dia,  ou pela graa das palavras; indicou-lhe dois: A
Lei de 28 de Setembro, ou Candongas No Fazem Festa.
 Mas que quer dizer Candongas No Fazem Festa? perguntou o autor.
 No quer dizer nada, mas populariza-se logo.
Pestana, ainda donzel indito, recusou qualquer das denominaes e guardou a
polca, mas no tardou que compusesse outra, e a comicho da publicidade levou6
o a imprimir as duas, com os ttulos que ao editor parecessem mais atraentes ou
apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante.
Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao ttulo, o editor
acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe
apresentasse, ttulo de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora Dona,
Guarde o Seu Balaio.
 E para a vez seguinte, acrescentou, j trago outro de cor.
Pestana, ainda donzel indito, recusou qualquer das denominaes compositor
bastava  procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gnero, original,
convidava a dan-la e decorava-se depressa. Em oito dias, estava clebre.
Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da composio, gostava
de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e
zangava-se quando no a tocavam bem. Desde logo, as orquestras de teatro a
executaram, e ele l foi a um deles. No desgostou tambm de a ouvir assobiada,
uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado.
Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais
depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos.
Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar
tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fcil e graciosa. E a
voltaram as nuseas de si mesmo, o dio a quem lhe pedia a nova polca da
moda, e juntamente o esforo de compor alguma cousa ao sabor clssico, uma
pgina que fosse, uma s, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e
Schumann. Vo estudo, intil esforo. Mergulhava naquele Jordo sem sair
batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de que a
vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mo da msica fcil...
 As polcas que vo para o inferno fazer danar o diabo, disse ele um dia, de
madrugada, ao deitar-se.
Mas as polcas no quiseram ir to fundo. Vinham  casa de Pestana,  prpria
sala dos retratos, irrompiam to prontas, que ele no tinha mais que o tempo de
as compor, imprimi-las depois, gost-las alguns dias, aborrec-las, e tornar s
velhas fontes, donde lhe no manava nada. Nessa alternativa viveu at casar, e
depois de casar.
 Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivo que lhe deu
aquela notcia.
 Vai casar com uma viva.
 Velha?
 Vinte e sete anos.
 Bonita?
 No, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a
ouviu cantar na ltima festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi tambm que ela
possui outra prenda, que no  rara, mas vale menos: est tsica.
Os escrives no deviam ter esprito,  mau esprito, quero dizer. A sobrinha
deste sentiu no fim um pingo de blsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja.
Era tudo verdade. Pestana casou da a dias com uma viva de vinte e sete anos,
boa cantora e tsica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu gnio. O celibato
era, sem dvida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo,
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artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por
aventuras de petimetres. Agora, sim,  que ia engendrar uma famlia de obras
srias, profundas, inspiradas e trabalhadas.
Essa esperana abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou 
primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, d-me o que no
achei na solido das noites, nem no tumulto dos dias.
Desde logo, para comemorar o consrcio, teve idia de compor um noturno.
Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princpio de
inspirao; no querendo dizer nada  mulher, antes de pronto, trabalhava s
escondidas; cousa difcil porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar
com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a
fazer alguns concertos semanais, com trs artistas, amigos do Pestana. Um
domingo, porm, no se pde ter o marido, e chamou a mulher para tocar um
trecho do noturno; no lhe disse o que era nem de quem era. De repente,
parando, interrogou-a com os olhos.
 Acaba, disse Maria, no  Chopin?
Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueuse.
Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esforo de memria,
executou a pea de Chopin. A idia, o motivo eram os mesmos; Pestana acharaos
em algum daqueles becos escuros da memria, velha cidade de traies.
Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado da ponte, caminho de
S. Cristvo.
 Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas. . . Viva a polca!
Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um
doudo. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambio e
a vocao. . . Passou o velho matadouro; ao chegar  porteira da estrada de ferro,
teve idia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o
esmagasse. O guarda f-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.
Poucos dias depois,  uma clara e fresca manh de maio de 1876,  eram seis
horas, Pestana sentiu nos dedos um frmito particular e conhecido. Ergueu-se
devagarinho, para no acordar Maria, que tossira toda noite, e agora dormia
profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente
que pde, extraiu uma polca. F-la publicar com um pseudnimo; nos dois meses
seguintes comps e publicou mais duas. Maria no soube nada; ia tossindo e
morrendo, at que expirou, uma noite, nos braos do marido, apavorado e
desesperado.
Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acrscimo, porque na vizinhana
havia um baile, em que se tocaram vrias de suas melhores polcas. J o baile era
duro de sofrer; as suas composies davam-lhe um ar de ironia e perversidade.
Ele sentia a cadncia dos passos, adivinhava os movimentos, porventura lbricos,
a que obrigava alguma daquelas composies; tudo isso ao p do cadver plido,
um molho de ossos, estendido na cama... Todas as horas da noite passaram
assim, vagarosas ou rpidas, midas de lgrimas e de suor, de guas-da-colnia
e de Labarraque , saltando sem parar, como ao som da polca de um grande
Pestana invisvel.
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Enterrada a mulher, o vivo teve uma nica preocupao: deixar a msica, depois
de compor um Requiem, que faria executar no primeiro aniversrio da morte de
Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer cousa
que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.
Comeou a obra; empregou tudo, arrojo, pacincia, meditao, e at os caprichos
do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Requiem deste
autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, clere a princpio, afrouxou o
andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta. no lhe sentia a
alma sacra, nem idia, nem inspirao, nem mtodo; ora elevava-se-lhe o
corao e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Requiem no
estava concludo. Redobrou de esforos, esqueceu lies e amizades. Tinha
refeito muitas vezes a obra; mas agora queria conclu-la, fosse como fosse.
Quinze dias, oito, cinco... A aurora do aniversrio veio ach-lo trabalhando.
Contentou-se da missa rezada e simples, para ele s. No se pode dizer se todas
as lgrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se
algumas eram do compositor. Certo  que nunca mais tornou ao Requiem.
"Para qu?" dizia ele a si mesmo.
Correu ainda um ano. No princpio de 1878, apareceu-lhe o editor.
 L vo dois anos, disse este, que nos no d um ar da sua graa. Toda a
gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?
 Nada.
 Bem sei o golpe que o feriu; mas l vo dois anos. Venho propor-lhe um
contrato: vinte polcas durante doze meses; o preo antigo, e uma porcentagem
maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.
Pestana assentiu com um gesto. Poucas lies tinha, vendera a casa para saldar
dvidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou
o contrato.
 Mas a primeira polca h de ser j, explicou o editor.  urgente. Viu a carta do
Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder, vo fazer a reforma
eleitoral. A polca h de chamar-se: Bravos  Eleio Direta! No  poltica;  um
bom ttulo de ocasio.
Pestana comps a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de silncio,
no perdera a originalidade nem a inspirao. Trazia a mesma nota genial. As
outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os repertrios;
mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para no cair em novas tentativas.
J agora pedia uma entrada de graa, sempre que havia alguma boa pera ou
concerto de artista ia, metia-se a um canto, gozando aquela poro de cousas
que nunca lhe haviam de brotar do crebro. Uma ou outra vez, ao tornar para
casa, cheio de msica, despertava nele o maestro indito; ento, sentava-se ao
piano, e, sem idia, tirava algumas notas, at que ia dormir, vinte ou trinta minutos
depois.
Assim foram passando os anos, at 1885. A fama do Pestana dera-lhe
definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro
lugar da aldeia no contentava a este Csar, que continuava a preferir-lhe, no o
segundo, mas o centsimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo,
acerca de suas composies a diferena  que eram menos violentas. Nem
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entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum
prazer e certo fastio.
Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, at virar
perniciosa. J estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que no sabia da
doena, e ia dar-lhe notcia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca
de ocasio. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro, referiu-lhe o estado do
Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente  que instou para
que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.
 Mas h de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
 Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.
Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi p ante p preparar o
remdio; o editor levantou-se e despediu-se.
 Adeus.
 Olhe, disse o Pestana, como  provvel que eu morra por estes dias, fao-lhe
logo duas polcas; a outra servir para quando subirem os liberais.
Foi a nica pilhria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na
madrugada seguinte, s quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal
consigo mesmo.
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Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de
1839 e faleceu na mesma cidade, em 29 de
setembro de 1908. Filho de mulato, brasileiro,
e de branca, portuguesa; era gago, epilptico,
pobre,  por causa disto no pde estudar em
escolas e tornou-se um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense",
foi aprendiz de tipgrafo na Imprensa
Nacional, onde conheceu seu protetor, Manuel
Antonio de Almeida; foi revisor de provas na
Editora Paula Brito e no "Correio Mercantil" e
colaborador em vrios jornais e revistas da
poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica,
muitos dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana,
Job, M.A., Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua
vida literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo
soneto de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa
Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
11
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase
Ministro", "Os Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a
1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de
Casa Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra
 de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em
toda sua obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e
muito de filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance
"Quincas Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante
para a compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos
captulos: ora curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear,
isto , muitas vezes um captulo no tem um final de ao, que ir continuar
no no imediatamente seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta
tcnica procura prender a ateno do leitor at o fim do livro, o que realmente
consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua
obra vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios,
constituindo-se no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um
escritor nacional. Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de
sua obra, a parte de fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os
romances a partir da fase que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs
Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu
prprio sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples,
sem nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes
12
caractersticas. Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem.
No foi grande poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrouse
parnasiano. Para Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante
da felicidade ou infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente 
prpria condio humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que
tudo  Iluso. Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer
no solidarismo humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo.
Como critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode
aberrar das condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico
das abstraes. 0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo
grego: uma iniciativa de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o
soneto, dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a
alternncia do octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a
Artur de Oliveira. Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o
ritmo dos agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel
lio de poesia quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de
Pombal, publicou, sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze
sonetos, onde no h dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a
primeira fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e
escreve poesia, a quem devemos pelo o que seria diferente da j representa
uma evoluo. Vai eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia
romntica nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875),
Helena (1876) e Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos
personagens e do entrecho; revela-se a personalidade do autor na
preocupao mais acentuada do estudo dos caracteres. Mas as situaes que
arma, para os revelar, e a prpria compreenso que deles tem, tudo trai a
viso romntica, ainda que mitigada pela analise psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao,
a lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso
 significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com
a inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei
em 1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro
anos, rijos e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui
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acompanhado ao cemitrio por onze amigos". Galhofando dos ascendentes,
fala da prpria genealogia. Assevera que morreu de pneumonia apanhada
quando trabalhava num invento farmacutico, um emplastro medicamentoso.
Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos
dias de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado
num hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto
de uma montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais,
tiveram grande influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas:
tio Joo, homem de lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso
e severo; Dona Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs
passou uma infncia de menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve
as primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a
gastar demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela
gostava de jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amoume,
diz Brs Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o
pai tomou conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a
Europa: "vais cursar uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o
curso jurdico e bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta
ao Rio: a me estava moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me
falece. Passando uns dias na Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com
um defeito na perna que a fazia coxear um pouco, com ela mantm um
passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo
deputado. Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura
aumentar o circulo de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o
caminho para o futuro deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao
Conselheiro Dutra que promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida
ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual
se apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam
prestes a realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto
aconteceu um imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a
namorada, mas tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente
desapontado e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre.
Virglia casa-se com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o
marido. Mas, na verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e
ama realmente a Brs Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com
freqncia e, em breve, tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e
nela confiava inteiramente. Alis no tinha muito tempo para observar o que
se passava, j que estava entregue totalmente  poltica.
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Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de
escola primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua.
Depois do encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara
o relgio. Os encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e
mexericos dos vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a
Virglia a fuga para um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a
ama e na famlia, e sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em
alguma rua escondida. A idia parece boa a Brs, que sai remoendo a
proposta: "uma casinha solitria, em alguma rua escura". Virglia e sua exempregada,
chamada Dona Plcida, se encarregam de adornar a casa e,
aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida. Ali os dois amantes se
encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem suspeitas. Sucedeu
que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi designado como
presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se com a mulher.
Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar
ao amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs
aceita. Os mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina,
procura fazer ver ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais
por superstio do que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no
aceitando mais o cargo de presidente, porque o decreto de nomeao sara
publicado no Dirio oficial num dia 13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero,
um nmero fatdico. Lobo Neves recebe uma carta annima denunciando os
amores da esposa com o amigo. Isso faz com que os dois amantes se
mostrem mais reservados, embora continuem encontrando-se na Gamboa
(onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens:
Lobo neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o
interior do pas levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer
a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs,
volta a insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se
Nh-lol. Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente,
mas Nh-lol vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se
tambm com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia
atrado anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os
amores de Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o
relgio, passando a ser um freqentador da casa de Brs.
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Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana
de um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria
filosfico-religiosa, o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs
Cubas passa a interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por
esse tempo, o Lobo Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como
o havia trado com sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que
havia enlouquecido completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco
depois de Quincas Borba, por causa de urna molstia que apanhara quando
tratava de um invento seu, denominado " emplasto Brs Cubas".
E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me
com um pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de
negativas: no tive filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa
misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa
acompanha os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura
fragmentada, ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou.
A vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao
cnica ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada.
Pessimismo (influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na
Literatura Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre
dois mundos, foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo
s idealizaes romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo
v e tudo julga, Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco
e incoerente. 0 que restou foram as memrias de um homem igual a tantos
outros, o cauto e desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte.
Criou uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal,
eterno, comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse
principio indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se
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encontram, frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro
para sustentar uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo
que vence, ganha as batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice
condimentam as lies de Quincas Borba.
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto.
Um filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade,
viva de parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro.
Rubio foi o melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de
Brs Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo.
Herdeiro de tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma
em Barcelona, escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias,
dinheiro, livros, a filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula
nica do testamento era tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado
pelo tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de
mostr-la a todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia
aprendeu logo e bem a arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca
o dinheiro. Ganha presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade
Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os
seus desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0
dinheiro acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando.
Rubio passa pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que 
Napoleo III . Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai
para Barbacena. L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas
Borba, tambm morto, numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos,
ri-te.  a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais,
concluda com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao
vencedoras batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies
polticas acabam levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde
mestre-escola, ingnuo e puro, envolve-se em um novo mundo, violento e
agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta17
o  loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico,
explorado pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda
metade do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo
natural que, na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram
de Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j
est com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de
Bentinho, viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma
promessa, se fosse bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso
(padre ou freira, conforme o sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a
promessa: Bentinho iria para o seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se
transforma em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se
tornando um grave problema para os dois, que buscam todas as maneiras de
evit-lo. Justina, prima de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem
Bentinho suplica que interceda com a me em seu favor, se nega. Jos Dias,
velho empregado da casa, muito estimado, diz que o problema no  fcil,
pois o melhor , antes, aplainar o caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole
tmida, tenta falar com a me, mas nem sequer consegue dizer-lhe o que
quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas de evitar o seminrio. De
qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que, acontea o que
acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar apenas algum
tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu
amigo e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as
visitas semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma
idia: Dona Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto
, custeando as despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do
seminrio. A idia vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado
em Direito, casa-se com Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E
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essa felicidade ainda se torna maior quando Escobar, que tambm sara do
seminrio, casa-se com Sancha, amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha,
 qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode
chamar tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem
promessas e rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos
pais. Chama-se Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e
Capitu. Certo dia, Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre
afogado. Sancha retira-se para o Paran, onde possua parentes.
E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando
uni retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os
mesmos olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta
Bentinho, e uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam
passado despercebidas comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas:
Capitu o trara. Um dia explode com Capitu, que no consegue encontrar
meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas desculpas confirmam
definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o filho de Escobar
para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a falecer.
Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente,
tambm morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o
meu melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o
destino que acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS
DUAS PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador
coloca-se num ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem
contamin-los, episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas
apenas da carga emocional correspondente ao impacto do momento da
ocorrncia. Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do
passado o ngulo do prprio momento da evocao, marcado pelo
desmoronamento da iluso de sua felicidade. Dessa forma temos uma dupla
viso da experincia, reconstituda em termos de exposio e de anlise. A
viso esfumaada do adultrio  um dos requintes do Bruxo do Cosme Velho
(Machado). Parece inspirado no drama de Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte
criao de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai
tecendo o seu destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
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 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles. 
medida que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos
diversos: so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro 
dissimulado e conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois.
J adultos, a causa principal de suas divergncias passa a ser de ordem
poltica  Paulo  republicano e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca
da Proclamao da Repblica, quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem
ambos gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos
dois:  retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias
levou o conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro 
mais um grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como
memorialista no prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata
aposentado, de hbitos discretos e gosto requintado, amante de citaes
eruditas, muitas vezes interpreta o pensamento do prprio romancista.
As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de
Flora, tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua.
Continuam a se desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se
elegeram deputados, e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento
de amizade eterna, este feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade
e contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados
paralelamente, ao longo das memrias do conselheiro Aires, personagem
surgido em Esa e Jac: o do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo.
Trata-se de um livro concebido em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de
melancolia. Nele Machado de Assis ps muito dos ltimos anos de sua vida
com Carolina, falecida quatro anos antes da publicao. No h muito que
contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de um casal de velhos. 0 estilo
 de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice, pretendeu com este livro
prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em tom de mal disfarada
tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra
machadiana. Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo
ceticismo risonho do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos
seus primeiros romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do
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amor. Distingue-o, porm, e torna-a muito superior queles a mestria do
ofcio, o domnio do instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o
ntimo atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a
dar alguma idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro,
com outras intenes e de outra tessitura.
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